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É Trauma

Entrou no vagão um moço. Sacou um pandeiro e começou a tocar Jackson do Pandeiro. Aos berros. Calma. Nem tô reclamando. Fora aquela agonia de evitar o olho no olho para não ter que dar dinheiro, estava tudo bem.

Fitei ao longe uma mãe com uma bebê – de extrema cremosidade, por sinal- dormindo. Aí começou o meu problema. O cara martelava o pandeiro no ouvido da criança e pensei: “É. As pessoas não respeitam crianças dormindo. É. No lugar dela, eu estaria fuzilando ele com o olhar. Não não. Estaria colocando o pé na frente para ele cair. Pior. Estaria planejando a morte dele. No mínimo, no mínimo, um shhhhhhhhhh!!!” Pensamento rabugentos que freqüentemente me rondam e que, lembro bem, ficaram piores quando meu filho era um bebê insone. Não que todos sejam, mas o meu era.

Na real, na real, já estava fazendo isso por ela. A criança dormia. E eu me contorcia na cadeira. “Ave Maria, ela vai acordar…”

Trauma. O nome disso é trauma. Trauma de uma mulher que colou ploc monster preto na cruz. Trauma de uma mãe de uma criança que acordava até com a batida de asas de um pernilongo senil.

Pegue a metade da população do Rio de Janeiro. Devo ter desejado a morte de um número equivalente de gente. E se num mundo imaginário essas mortes tivessem existido, se num mundo imaginário eu tivesse sido julgada, teria sido absolvida. Foi trauma. A mulé matou geral porque estava traumatizada.

Olhava praquela mãe em situação similar ao meu passado – passa, minha gente, guenta que passa – e aguardava sua ira. Ela apertava os olhos. Não dizia nem que sim, nem que não.

O cara cantava alto, rapaz! E eu quicava num silêncio mentiroso.

A música acabou. Respirei aliviada com a imagem daquele bebê dormindo. Ela, desconfortável e parcialmente imóvel como qualquer mãe que conforta um bebê dormindo, bateu palmas. Bateu palmas para o rapaz que tentava acordar sua filha. Sorria! Ela sorria. E eu, defensora dos fracos e oprimidos que não me pediram defesa, estava rosnando. “Que palhaçada, Fernanda, tira esse ódio do coração, minha filha!”

A moça levantou-se e saiu na estação seguinte. Sorri para a doçura daquela cena. Uma mãe cuidadosa carregando uma bebê cremosa de maiô de moranguinhos.

Ri de mim, amansei a minha fera e me consolei “É trauma…”

Foto: Michelle Castilho

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