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Maratona no salão de beleza: um ato heróico

Minha amiga de barriga me disse com seu sotaque espanhol gracioso ” Estas procurando mierda, Fernanda…” Disse isso num tom engraçado, ela puxa o erre do Fernanda como se fosse uma motocicleta pegando no tranco. Eu rindo respondi “É, neh? Eu com certeza não estava procurando fazer a unha, estava procurando estresse!” Referíamo-nos à minha tentativa herculia de ir ao salão fazer pé, mão e cabelo sozinha com um bebê.
Tentando ter um pouco de clareza de consciência, que bebê saudável no auge dos seus 7 meses, engatinhando, com dentes e emitindo sons da floresta, ficaria quieto com sua mãe imobilizada em cima de uma cadeira por 3 horas?
Nenhum, Bento não seria exceção. A exceção sou eu, com essas ideias idiotas, achando que conseguiria fazer a minha transformação da Xuxa e cuidar do bebê ao mesmo tempo.
Fui no hortifruti antes, já comecei ali a testar a paciência do pequeno. Dava saltos com as frutas coloridas, cantava música e fazia caretas para distrai-lo no carrinho. Se ele tivesse se emputecido a partir dali, a missão salão teria sido cancelada. Só que não. Ele ficou na boa. Fiquei rezando por uma dormidinha básica no caminho, mas Deus olhou pra mim e disse “Não reza à noite e quer rezar agora para apagar o moleque? Nananinanão.” Acesso negado. Bento foi aceso e serelepe. Chegando lá, fiz meu drama usual. Como se tratava de uma mulher largada aos frangalhos que esquecia até de comer, a solução era juntar tudo e jogar fora, mas não seria possível, não tô podendo morrer ultimamente. Inclusive, não saio de motos em dias de chuva. Com um bebê em casa não posso me dar ao luxo de morrer. Sendo assim, falei com a recepcionista “Oi, eu sou uma mãe solteira e largada as traças, quero fazer pé, mão, cortar cabelo, fazer californianas e quero desconto!” De quebra completei: “Só não sei se conseguirei fazer isso tudo com esse bebê.” Cara de drama. Eu sei, não presto, não valho o chão que piso. Eu já sabia, elas, as cabelereiras e manicures, se revezariam com a minha redonda anilha de 12kg para que eu pudesse entrar Cássia Kiss e sair Beyoncé.
Foi o que aconteceu. Tinha uma moça aguardando não sei quem, foi a primeira a se candidatar, mas de início relutei. Fui lavar o cabelo para começar o corte e levei Bento no carrinho. Ele começou a reclamar e a cena seguinte era eu com ele debruçado em mim, me babando inteira, enquanto minha cabeça pesava para trás. O cara passou xampu duas vezes e creme uma. No final, fez uma massagem com aquela abundância de espuma no meu cabelo.
Parecia que ele queria fazer sexo comigo. Eu admiro o pragmatismo de quem não tem filho, mas minha vontade era pedir “Moço, pode passar o xampu uma vez bem rápido e deu, vamos pro corte.” Entende que bebês têm prazo de validade? Eu entendo, as pessoas não. Eles se cansam com facilidade das coisas. A massagem que era para relaxar, me irritou. Ainda eram 16:30.
Em seguida, dei uma peitada violenta no menino, para ver se dormia. Dei de mamar ainda com o negão fazendo massagens afrodisíacas nos meus cabelos e depois, já na cadeira, enfiei o Bento debaixo do guarda pó para que continuasse sua mamação. Visualiza. De vez em quando, eu destapava a cara dele e ele me olhava rindo. Como não rir também? Devia estar interessante.
Quando ele acabou, e não dormiu, a moça que ainda estava lá o pegou. Comecei a fazer o pé. Ele passou nuns 5 colos, 5 segundos cada.

-Que pesado! Que grandão! O pai é grandão?

-Mais ou menos, minha senhora, ele puxou à mãe mesmo. – Piadinha interna, eu e eu mesma sempre gargalhamos com essa.

- Ele é loirinho! O pai é loiro?

Acho que vou gravar um arquivo no celular respondendo essa. Imagina, cada vez que me perguntarem, eu faço uma cara de bunda, saco o celular do bolso e coloco play. Puro ácido.

Deixa explicar, eu era loirinha dos cabelos cor de mel. No verão, ficava preta dos cabelos brancos. Na minha família, meu pai que tem o cabelo bem preto e minha mãe que tem um marrom escuro, também foram loiros quando crianças. O que entendo de cabelos e crianças é que a maioria das pessoas são loiras na infância.

Pra evitar qualquer dúvida, resolvi ali que minhas californianas iam ser beeem claras.

- Você quer tipo Paula Toller?- me perguntou o cabelereiro.

- O que seria isso?

Respondi que seria tipo Angélica mais dourado, se é que existe.

17:30 e Bento começava a apresentar sinais de desconforto, eu ainda estava imobilizada, tipo perua com os dedos separados para não borrar as unhas e o cabelo cortado tipo rica.
Eu falava pra moça “Coloca a criança no chão! Que se danem os cabelos! Vai tomar banho quando chegar em casa.” Não pude completar um palavrão, porque era a babá mais 0800 e mais generosa que havia por ali.

A primeira etapa foi concluída e eu aguardava a coloração. O cara disse que 18:45 estaria pronto. Ele começou e eu me equilibrando com Bento no colo. A babá tinha partido.
Dei suco, água, ele estava inquieto. Coloquei-o de volta no carrinho e me rendi ao Baby (santo) Beethoven do celular para acalmá-lo. Sabe como é, pão de pobre cai com o requeijão pra baixo, celular de mãe solteira com música quando você mais precisa, acaba a bateria. Eu não seria diferente. Não estávamos nem na quinta sinfonia de Beethoven e o celular morreu. A solução foi dar de mamar. Já estava quase na hora dele dormir. Essa poderia ser a mamada fatal.
Ele estava apagado, chupetando meu peito quando meu pai chegou. Consegui enviar uma mensagem indicando nosso paredeiro antes da morte do celular. Pedi para ele pegar o Bento (a-pa-ga-do) e colocar no carrinho. Deus era bom e ia me deixar terminar aquela maratona, que já estava pra lá de irritante, de beleza. Antes tivesse ficado descabelada, morena e com as unhas escrotas. No meio da manobra, Bento acordou e sobrou pro avô entrete-lo. A cada 5 minutos, ele largava o neto, ou no carrinho ou no meu colo, para recuperar a irrigação sanguínea do seu bíceps.
Notei a fralda mijada e fui trocar com ele no meu colo, cabelos empapelados e uma argola girando aquecendo meu couro cabeludo e meu corpo. Eu só tinha uma fralda e, no estresse, consegui arrancar uma de suas alças. Bento mijou em mim. Meu pai suava, eu suava. Fui ao banheiro e notei que minha bunda suava. Tenho pra mim que quando sua bunda sua é sinal de calor grave.
Estava lá, meu filho, de camiseta cagada ainda do suco de manga vespertino, fralda pendurada, chateado. Eu imobilizada. A cor do cabelo ainda não tinha aberto pro tipo Angélica meio dourado. Minha amiga passou lá com seu bebê. Ria de mim e era solidária emprestando o seu celular para ver a Galinha Pintadinha gravada por ela mesma. Mas o que seria isso? Você que já assistiu alguma vez na vida DVD pirata, era parecido. Alguém gravando de dentro do cinema, era ela. Não posso reclamar, segurou a onda uns minutos. Até meu pai deu no pé. Achei bom. Como eu justificaria aquele gasto no salão em plena crise financeira pós parto? Por fim, me livrei dos papeis brilhantes, secaram meus cabelos e saí toda gatinha do salão.

“Tá bonita… Vai para alguma festa?” Não, não, me produzi para dar de mamar elegante às 2am.

Minha amiga tem senso de humor. Saíamos do salão rindo daquela tragédia. Ou não. Estávamos vivos e eu loira (de leve), cabelos mais curtos e unhas pintadas de vermelha.

“Você tem que ficar bonita para você mesma!” É isso aí! Mas fato que pros outros é bem mais divertido.

Já me despedindo da maratona transformação da Xuxa, Patrícia olhou para mim e perguntou:

- Seu pai não estava aqui desde o início? (sotaque espanhol)
- Não.
- Você queria ter feito tudo isso sozinha com o bebê?
Fazendo cara de que fez besteirinha
- É… Maluca, né?
- Estas procurando mierda, Fernanda, mierda…

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