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Poluição

Aqui estamos eu e você novamente.

A garganta se inflama em tosse de tudo que tá preso. Mas aprendi que é feio dizer.

Meus sonhos não me deixam mentir.

Eu beijei a lama.

E não foi uma, nem duas vezes.

Perdi as contas.

Muita gente estava ali pra rir.

Inclusive eu, minha pior algoz.

Me descobri e me defini loba, no entanto, mal percebi que abria a porta para um Barba Azul daqueles!

“Fernanda, vá por aqui, vá por ali.”

Assim não tá bom.

Encrenqueira demais, bruta demais, carrancuda demais. E eu concordando.

Fui a zebra mais loba da vez e sabia porque havia sido.

Usava meus próprios sapatos vermelhos.

Tinha vedado os ouvidos, trincado os dentes e seguido.

Burra, burra, burra!

Fui eu relaxar, que todas aquelas coisas entraram na minha cabeça novamente.

Com mais violência.

“Afinal, você sempre foi a Fernanda que nós pintamos.”

Ahhhh… e como pintaram.

De piche, tinta óleo.

Foi sorte.

Eu sei.

Tô de lama até a cintura.

Os olhos cheios d’água e a visão turva.

O rio poluído e minhas crianças lá dentro.

Mal acho a beira.

Visão turva.

Enfiada nesse saco opaco, escuto as vozes ali fora.

Sei que me amam, mas esse sentimento não chega ao meu peito.

Um deserto dentro de mim.

Deus, como cheguei de volta até aqui? Qual foi o mole, o estalo, o deslize?

Não lembro, não lembro mesmo.

No entanto, me recordo da força que já tive.

E um fio meu ainda vivo, crê que ela possa voltar.

Não é possível, Fernanda! Logo você?!

Sim. Eu.

Tá fora e tá dentro.

Deve ser químico, praga, feitiçaria.

Se é químico, eu tomo remédio.

Se é praga, banho de sal grosso.

Se feitiço, acendo um incenso.

10, 100 ou 1000 passos atrás.

Não me interessa.

Só me resta voltar e catar meus pedaços.

Reconstituir a cena do crime.

Na qual eu era a testemunha.

A vítima.

E a própria assassina.

 

 

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