Minha avó, minha mãe.

Uma vez uma mulher me disse: “Sua avó sustenta o teatro”. Na época, eu morava com a minha avó paterna. Vivíamos em eternos conflitos geracionais, educacionais, temperamentais. Na época, eu não tinha maturidade pra ver que ela foi a maior demonstração de amor incondicional que pude ter. Não haviam condições, não haviam inconvenientes para minha avó abrir os braços para os netos. E talvez, para ninguém. Porém, eu, na minha rebeldia de adolescente, detestando as limitações e ordens, me punha a adorar sempre os familiares distantes. Tinha a fantasia de que minha avó materna era minha preferida. A encontrava aos finais de semana, batíamos papo e era só amor. Fantasiava que meu pai era perfeito. Um cara de bom coração, justo, honesto, inteligente, que nunca nos deixou faltar algo. Acreditava que eu não morava com a minha mãe por comodismo, falta de força para voltar atrás.
Saí da casa da minha avó aos 22 anos, no meio de uma briga. Dizia eu aos berros que não tinha escolhido morar lá, que não aguentava mais. Ela ainda me pediu para ficar. Mesmo eu dando o maior xilique, arrumando feito doida minha mala sem lugar pra ir ou dinheiro para me sustentar.
Meses depois foi aniversário dela, não nos falávamos desde que saí de lá e, mesmo assim, me ligou perguntando por que não compareci ao lanche e me disse: “Eu nunca deixaria de te receber no meu aniversário, nem em evento algum.” Depois daí, nossa relação se transformou completamente… A vivência sozinha me fez dar valor a tudo que ela me ensinou. Nossos encontros passaram a ser de puro amor, admiração, confidências, carinhos e tudo de bom que há numa relação de mãe e filha, de avó e neta.
O teatro ainda existia, mas não resistiu ao seu falecimento.
Dia 25 de junho de 2010 minha avó ia embora. Minha avó que me levava pra jogar casca de pão para os peixes da lagoa. Minha avó que me ensinou a batalhar pelas coisas que queria. Minha avó que se preocupava com a fome mundial. Minha avó que, dentro das suas possibilidades, não me deixou faltar nada sem me mimar. Minha avó que, às vezes, eu adiava almoço porque achava que sempre estaria lá. Minha avó que nunca mediu esforços para sustentar esse teatro chamado família.
Bastou ela partir pro teatro desabar. Não me restou pai, não me restou avô, não me restou madrinha, não me restou avó materna, não me restou madrasta. Restou apenas um sentimento: saudade. Ela fazia a diferença.
Qualquer centro espírita que vou, qualquer oráculo que consulto me diz que ela está comigo ou que está preocupada comigo.
Vó, é inevitável a sensação de estar sozinha sem você aqui. É inevitável pensar que eu estava errada o tempo todo…
Você era e é a minha maior demonstração de amor

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