Brava, sou brava.

Eu sou encrenqueira, sou agressiva e não fujo de um embate. Não estou dizendo que sou boa neles, sou péssima. Quando minha raiva é amena ou média, vou bem. Mas quando ela é insana, eu choro. Uma droga. Resolvi admitir que sou encrenqueira. Adoro uma discussãozinha, achar que os outros não batem bem da bola e que eu sou A verdade. Melhor admitir, metida, pentelha e essencialmente encrenqueira. Opinião formada até pra coisas que nem sei direito só pra dizer que tenho idéia formada pra qualquer coisa. Passei os últimos 27 anos negando essa brabeza, mas acabou, ta aí minha declaração: sou encrenqueira, defensora dos frascos e comprimidos, adoro uma verdade, não me conformo em não compartilhar as coisas que acredito e tento radicalmente converter as pessoas. Não sei apontar exatamente porque tento convencer as pessoas. Tipo, se fiz parto humanizado e sei que os médicos de plano mentem pra marcar cesárea – só um exemplo – eu podia ficar feliz e contente porque não caí nessa, mas não! Loto a página do facebook e buzino os ouvidos das minhas amigas com as informações que vou encontrando. Tento converter tooodo mundo ao que fui autoconvertida. Ou seja, não me satisfaço em me dar bem, quero arrastar uma massa comigo. Não tenho como evitar minha aquarianice. Cansei de ouvir que sou brava e ficar fingindo que não sou, que negação dos infernos! Sou mas tenho bom coração, boas intenções. Dizem sempre que eu sou séria demais, que meto medo. Não gosto dessa fama, mas deve ser verdade, todo mundo fala. Minha mãe me conta que quando eu era pequena, as pessoas só faltavam plantar bananeira na minha frente para me fazer rir e eu continuava séria. Po, tá achando o quê? Que só porque eu era criança eu era mongolóide? Quer me fazer rir me conte uma piada inteligente! kkkkkkkkk Sei lá porque eu não ria, mas já era uma prévia do que vinha pela frente.
Pra surpreender vocês, na creche, eu era mordida. Não agredia meus coleguinhas. Voltava pra casa com anotação na caderneta “Fernanda foi mordida pelo coleguinha (desgraçado) fulano de tal”. Não revidei nada no maternal.
No jardim, cada dia uma menina “namorava” um menino por sorteio. Eu gostava de um tal de Thiago, o mais levado da turma, cheio de sardinhas. Veja como sempre gostei de desafios. No dia que Thiago foi sorteado para ser meu namorado ele se ferrou, o forcei a brincar de boneca de pano comigo o dia todo. Já comecei a exibir meu lado tirano. Ele deve ter sabotado todos os sorteios seguintes para me evitar. Justo.
Na alfabetização, travei guerra com um menino da turma e brincávamos de ir para coordenação todos os dias, pois trocávamos agressões físicas. Cheguei a morder uma professora para poder bater nele. Meu motivo era nobre, ele havia roubado a cola colorida que eu estava usando. No mesmo ano, eu brincava de pertubar as meninas da série acima. Lembro de uma que eu fiquei segurando pela trança enquanto ela tentava descer pelo escorrega. Fernanda maquiavélica.
Em seguida veio o primário, anos que já mostravam o cenário futuro dos meus relacionamentos para com o sexo masculino. Eu só brigava e/ou batia em meninos.
Quando entrei no segundo grau, essa necessidade de agressão se tornou uma língua afiada e rebelde que estava cagando se o professor me colocava pra fora de sala. Eu ia pra coordenação e ainda ficava batendo papo com os coordenadores que me adoravam: “Fernandinha, você aqui de novo?”. Fernandinha fazia cara fofa. Minha avó me dizia: “Nanda, o mundo é dos mansos”. Eu ficava puta. É, vó, o mundo não é meu…
Devo admitir que o esporte, a escrita e a terapia me salvaram, em parte, desse excesso de necessidade de ação e adrenalina. Hoje, emprego minha brabeza em causas mais interessantes, reclamo se alguém joga lixo na rua, sou franca e direta quando acho que preciso, não levo pra casa mas tento resolver o bolo na garganta de forma mais amena. Minha brabeza é a alma da minha palhaçada, quando pego o carro ou a moto, parece que entrei num tanque de guerra. Falo, xingo, resmungo, rio dos meus próprios comentários e fico imaginando alguém escutando eles. Sério. Me imagino num show de stand up falando as besteiras que falo dirigindo.
E os apelidos? No remo o primeiro foi emburradinha, o segundo, pit bull. Minha família materna me chamava e me chama ainda de Juma Marruá. Veja, coisa boa eu não sou.
Porque sou brava. Detesto admitir, mas sou. Se você me conhecer pessoalmente, verá que sou muito mais coisas do que só “brava”, que de perto essa brabeza é rabujice, e que essa rabujice de perto é bem engraçada.

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