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Maternidade: ida sem volta

Bastou o óvulo fecundar e eles se lançam na vida. Eles, os hormônios, são liberados pela hipófise.

Hormônios aflitos – pelo menos esses da maternidade. E olha que a brincadeira – ou o desespero – só está começando. No final, eles ficam bem mais aflitos. Uma pequena portinhola na hipófise é aberta. Os hormônios se agitam – são vândalos. Uma confusão está eminente. Sobem um nos outros, querem se libertar. Querem se libertar logo. É uma gritaria que você não pode imaginar. Posso escutá-los. Saem às gargalhadas. Tem um sarcasmo nisso tudo. Eles entram para sacanear a dona do corpo. Logo ela, a pessoa que lhes dá vida.

A notícia boa é que piora. Piora a ponto de você achar que é normal. Sempre acho que tem um nível de loucura que é salvatório.

[Acredite. Eu frequento diversos grupos de mães pela internet. Vejo seus posts, seus comentários. Penso: "Coitada... Hormônios..." Não culpo nem julgo a dona dos mesmos. Mentira. Julgo sim.]

Você entra pela porta da maternidade com um nome, uma crença, uma personalidade. Sai com um bebê e… mais hormônios. Bem mais. Às vezes, nem sabe a fonte daquela loucura toda, recalca ela e amanhece com pânico de que toquem o seu bebê. Dorme com o pé sujo e acorda querendo tomar banho de álcool gel. Entra social e sai não querendo ver o sol. Os hormônios gargalham e as pessoas acham que você pirou porque passou a dar a vida por alimentos orgânicos.

Você entra pela porta da maternidade cética e sai esotérica. Vale qualquer mandinga pra criança dormir, pra febre passar, pra gengiva parar de coçar, pro soluço parar, pra cólica dar um descanço, pra criança peidar, pra vacina não dar reação. Esqueci alguma coisa? Vale tudo. Vale rezar. Vale colar de âmbar. Vale papel molhado na testa. Vale cura xamânica. Vale massagem tailandesa, indiana, sueca. Vale figa contra mau olhado. Vale tudo. Tô mentindo?

Você entra pela porta da maternidade burra e sai PHD em desenvolvimento infantil, alimentação infantil, higiene infantil e galinha pintadinha volumes 1, 2, 3…20. Tá bom, você é daquelas que ficou maluca a ponto de achar um absurdo Galinha Pintadinha, mas canta alecrim dourado e as saias da barata pro bebê. Deixa de ser boboca, essas músicas têm na Galinha Pintadinha. Não precisa mostrar o vídeo. Bota a musiquinha pra tocar. Bebês são musicais.

Você entra pela porta da maternidade racional e sai selvagem. Vira bicho. De vez. Aceite. Você nunca mais será a mesma.
Vai dar conta que o seu cabelo é cacheado mesmo e que cacheado é bonito sim – admito que a falta de tempo que assolará os seus dias, facilitará esse processo.
Vai dar conta que não são as roupas que a deixam bonita, confiante, e sim sua vibração. A roupa fica legal por tua conta. É você quem veste a roupa, não ela que veste você. A maternidade te deixa noutra frequencia – acredito que melhor.
Vai entender que uma estria com contexto é bem diferente de uma estria solta num anúncio de clínica de estética. Você é uma guerreira. Passou por um portal. Normal que tenha as marcas desse evento.

Você entra pela porta da maternidade sozinha e sai com a arca de noé. Dentro de você.
Vira mãe leoa, ruge durante as contrações, bota seu filho no mundo. O protege. É uma mãe leoa de dar gosto. Sai à caça se preciso.
Vira mãe coruja, a criança pisca e você acha lindo. Coruja dia e noite. Não dorme. Admira tudo de novo, velho ou repetido que ele faz. Coruja não cansa de corujar.
Vira mãe ganso, não desgruda da prole. Até aquela que não é grudada com ninguém começa a produzir cola que não acaba mais. Mãe ganso é brava! Não suporta que falem mal da sua cria, que a critiquem, mesmo que saiba que estão com a razão. Da minha prole falo eu, mais ninguém.
Vira mãe canguru e desfila com seu canguru filhote numa coleção de wraps, cangurus, slings, panos ou, simplesmente, braços. Deixa seu bebê quentinho no aconchego do seu cheiro, da sua pele.

A maternidade é o portal da loucura mais doce que se pode imaginar. Você dizer que uma mãe é louca é, no mínimo, redundante.

A maternidade é o portal do amor maior. Passando nele, seu conceito de amor muda pra nunca mais te dar descanso.

A maternidade é um portal químico. Íons positivos aderem à sua pele e ao seu coração. Hormônios liberam tudo que há de mais poderoso em você.

A maternidade é um portal. Hormônios pilantras te acompanham nessa passagem. É quase um bullying com consentimento. Você deseja passar ali. Depois… Depois ri de si mesma. E chora. Sofre até. E se te perguntam se você quer voltar atrás, diz que não. E se te perguntam o que você ganha com toda essa loucura, você ri. Ri a ponto de te acharem maluca.

Ria a ponto de te acharem insana, pois no final, isso será só mais uma redundância.

Hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha

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