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Minha casa, sua casa

Treinos, viagens, cansaços, saudades, novidades.

Ah. Bento.

Me virando nos 30 pra saber o que fazer com ele – se vai comigo, se não vai, com quem fica- a cada viagem. Tentando cuidar daquela cabecinha de quase 4 anos que não tem dimensão que sua mãe está nas olimpíadas – nas Olimpíadas, filho! – e isso requer um sacrifício da nossa parte.
Todos os dias (ou quase) ele pede para irmos pra nossa casa. Dilacera o meu coração.
Atualmente, quando vamos ao Rio, ficamos na minha mãe. Estamos “sem a nossa casa”.
Na tentativa de remendar nossos corações, pergunto a ele então, onde é a nossa casa. Ele responde que não sabe – nem eu. Pra diminuir a sensação de móbile solto no furacão (de nós dois), digo-lhe em tom de conforto com a segurança que me é comum quando tomo a responsabilidade:

-Mamãe, vai arrumar uma casa muito linda pra gente com um quarto só pra você. Combinado?
- Uhum.
- Como você quer o seu quarto?
- Hummm… Memelho com marelo mistura fica laranja!
- Quarto laranja. Anotado. Quê mais?
- Um carro! Massinha!
- Carro, ok! Massinha, ok!
- Mamãe, qual é a cor da nossa casa?
- Boa! Vamos escolher, filho… Que cor você quer?
- Rosa e Banca!
- Rosa e Branca. Fechou! Boa escolha!

Nosso diálogo termina com ares esperançosos. Uma casa com jardim suíço. Brincadeiras, bichos, plantas. Ela espera por nós.

O coração racha, a saudade aperta, a preocupação é constante. Inevitável. Mas se tem um troço que me faz mover montanhas é esse: um pedido do Bento. Um pedido justo, humilde e que nós merecemos.  Nossa casa.

Escrevo aqui e o nariz fica vermelho. Os olhos mergulham nesse maremoto amoroso.

Tá acabando, filho. Casa rosa, quarto laranja, massinha. Nossa vida de volta.

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