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Zero a Zero

Sabe como é essa coisa de ser mulher, né? Sempre tem alguém em cima dizendo o que tem que fazer e etc. Principalmente, no que tange os relacionamentos. Porque mulher sozinha é mulher com defeito. Ou porque é chata demais. Ou porque é feia demais. Gorda demais. Exigente demais. Piriguete demais. Só tá bom quando ela consegue “prender” um homem. E dos bem sucedidos, por favor. Entende-se bem sucedido por bonito/rico/gente boa. Alguma dessas opções. 


Venho nesse ritmo celibatário – com algumas escapadas, claro- desde que engravidei. E se eu lançar que estou subindo pelas paredes e querendo dar para o primeiro que aparecer, vou estar mentindo. Não, não sou frígida. Mas a vida não é só sexo, vamos combinar. 


Outro dia, Bento ficou com o meu pai num sábado à noite. Eu tinha um aniversário pra ir. Cedo. Vale lembrar que minha rotina de atleta me põe na cama às 20h e de pé às 5:20 todos os dias. Portanto, depois das 20h sou praticamente um soldado fora de combate. Minha alma sai e fica apenas a carcaça para operações simples. Comer, escovar os dentes e chapar o côco.


Fui no niver. Fiz um esforço para me arrumar e tirar aquela cara dormida de mãe fica que nem barata impregnada de baygon quando está sem o filho. “Tira fralda, põe fralda, desce daí, menino, dá comida, dá banho, sapo cururu…” É. A gente fica meio sem rumo sem esse bombardeio de tarefas que as crianças nos impõem. Normalmente, quando tenho uma folga do Bento, planejo 40 coisas e a única que consigo fazer é me deitar e olhar para o teto.


Passei uma maquiagem, pus um vestido bacana, me perfumei e amarrei os cabelos de forma displicente. Fazer uma escova a essa altura seria pedir muito de mim. Até porque havia me atrasado preparando sopa de ervilha pra quem? Pra quem? Bom, pro meu novo namorado que não foi.


A empolgação com a ideia de sair era bem maior que a que carreguei pra minha saída. No entanto, degustei umas cervejas – que mais me apagaram que me acenderam – e falei bastante sacanagem.


Assim que souberam que a minha night estava free, minhas amigas começaram a pressão para me desencalhar, afinal, eu não posso estar bem se não estou namorando ou passando o rodo. Tsc tsc tsc… E olha que são minhas amigas! 


Admito, me pergunto se estou bem mesmo. Essa lisura toda não pode ser muito normal. E por esse motivo, não só pela pressão dazamiga fanfarrona, encarei a missão de não dormir às 21h naquela noite. Foi duro.


O primeiro problema era: onde? Estou fora de combate há tanto tempo que não faço a menor ideia de onde ficam os homens que me interessam nesse Rio de Janeiro. Eu sei, toda mulher tem uma lista de homens úteis para essas horas. Eu deveria ter uma. Mas acho que queimei. Sou o tipo de mulher (fiz 30, não sou mais garota) que não gosta de repetir figurinha. Próooooximo! Tipo abelha rainha, mata o zangão – mentalmente, tá gente, num vai pensando aí que sou um tipo de serial killer de machos, nada disso – depois que está satisfeita sexualmente. É claro que deve ter um sentido biológico, mas eu prefiro pensar que assim que ela goza, bate uma canseira da cara do sujeito. Sei lá, eu não gosto de insistir em coisas que não dão certo. No fundo, no fundo, eu espero um rei – porque príncipe é pras “princesa” e eu sou rainha. No fundo, no fundo, detesto perder tempo. Vai que chega o meu rei e eu tô beijando um sapo?


Dentro do problema “onde?” tinha o problema “você fez 30 anos e mongolóides de 20 e poucos não te interessam mais”. Po, o que esperar de uma mulher de 30 anos mãe de família? O mínimo de maturidade e falta de saco para os pequenos jovens narcisistas que freqüentam as nights do Rio de Janeiro. Estereótipo que, uns anos atrás, me renderiam flertes razoáveis. Ando na pilha de homens mais maduros – existe? Tá bom, mais velhos. E onde a gente encontra esses homens mais velhos? Provavelmente, não no lugar que eu fui.


Não vou citar o nome do bar por medo de que me lancem um processo por calúnia e difamação. Além disso, a empada e o chope de lá são sensacionais, não seria legal destruir isso tudo. Minhas amigas não queriam ir nesse bar, mas eu frisei que a última vez que consegui alguma coisa foi por lá e como a prioridade era minha…


Assim que chegamos, cheguei a conclusão de que tenho que rever minhas roupas, meus gostos e minhas escolhas. Achei tudo muito estranho. Talvez eu não estivesse bêbada o suficiente pra achar todo mundo bonito e bacana. “Deus, eu já fiz parte desse mundo, como?”


Dei dois passos e encontrei um caso de adolescência. Na época, ele era um gato. Sério, lindo mesmo. Talvez um dos mais bonitos que já namorei/fiquei/beijei. Atualmente, ele carrega uma pochete no seu abdômen e um heliporto na sua cabeça. Além da leve sensação de que ainda tem 17 anos – o que só me atraía quando eu tinha 16. Mas cara, quem sou eu para escolher alguma coisa a essa altura do campeonato? Só tem tu, vai tu mesmo e que se dane se você está careca, barrigudinho e freqüentando as mesmas festinhas de 15 anos atrás. 


Encarei o flerte. Minhas amigas até se afastaram. Pensaram “está no papo”. “Salvamos a Fê.” Porra nenhuma. O “cara” me alisou, sorriu, pagou chope e? Se enfiou num taxi para uma outra festinha longe dali. Se mandou. Vazou. Partiu.


Bocejei mais 15 vezes consecutivas e fui pra casa. Game over.


“Eu ando que nem o cometa Halley, só passo a cada 25 anos e você me largou para ir a uma festinha.” – mandei para o indivíduo, ainda inconformada com o 0 a 0.


Ele me respondeu dizendo que me chamou para festa e eu não quis ir. Aiiiiiiii, pega na mentira! Falou mais meia dúzias de besteiras e eu apaguei com o celular na mão. Acordei às 9h e lá estavam mais mensagens do mesmo às 4 da manhã, naquele fim de festa, dizendo: “onde você está?”


Amigão, é sério “mermo” que você acha que eu responderia esse “onde você está?” às 4 da manhã com um “estou na minha caminha de lingerie e dentes escovados te esperando, vem, amor!”???!!! 


Tive vontade de responder:


“A sua pipa levanta às 4 da manhã? Se levantar, pode vir.”


Me contive – esse linguajar não cai bem para mães de família. Entrei no samba e respondi:


- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH Piadista!


Passa amanhã, quiridão, amanhã, tá?


E assim, o deixei, sóbrio, justificando a sua babaquice através de mensagens tão amarelas quanto a falta de graça do dono.


Levantei da cama, lavei a cara, olhei no meu próprio olho e falei baixinho:


- Ah si fudê, cupádi…



Coloquei minha roupa, meu tênis e saí pra correr.

Linda, leve, solta e cada vez mais certa de quem sou e do que quero ser!


(Carlos, take your time.) 

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