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Sobre Bebês & Sanguessugas

Era com certa felicidade que eu a assistia presa pela boca ao meu seio. Quando a boca descolava do peito eu ainda podia ver sua língua em formato de concha, a boca era feita

prioritariamente para isso e ficava claro que podíamos bem passar a vida sem falar beijar assobiar engolir espadas ou seja lá o que for, mas não sem sugar um outro ser, somos sangue-sugas e não digo isso depreciativamente, é nossa natureza e vamos sugar tudo ao longo da vida. Vence quem souber fazer melhor. Ela é boa nisso, tem uma ferocidade congênita, com as mãos mínimas agarra o seio que é duas vezes maior que sua cabeça e me ordenha, isso mesmo, como qualquer filhote mamífero , agora não sou diferente de uma cadela ou de uma vaca, a existência dela me animaliza. Tem uma preferência nítida por um dos seios, só pegava o outro depois que esvaziava totalmente esse, e ainda assim dava pouca atenção, apenas dois beijinhos, uma mordidinha e caía no sono. Dormindo ela fica sempre mais bonita. Levantava o mosqueteiro, colocava seu corpinho de lado , existem muitas teorias pra tudo, mas ao se tratar de criança existem zilhões de teorias para cada coisa, colocava-a de lado pois caso tivesse um refluxo, um súbito vômito, nessa posição ela não se sufocaria, essa era a teoria da moda na época, agora passa na tv que a criança tem que dormir de barriga pra cima, eu tenho outra teoria, se tiver que morrer vai morrer, o mundo não é dos mais fortes, mas de quem sabe se virar mesmo antes de aprender a andar.
Abaixo o mosqueteiro, que é uma coisa que só serve pra acumular poeira, mas que persiste como as tradições suspensas por pregos enferrujados, como não sou eu quem pago as contas, logo também não decido o que é ou não é necessário.
O seio esquerdo e desprezado dói muito, parece que vai explodir, as veias verdes urdem desenhos com as estrias vermelhas, é quase bonito o cruzamento das cores complementares, seria lindo se essa beleza não estivesse desenhada a fundo na minha carne. Volto sentir as dores, o cheiro de leite azedo que todas as minhas roupas tinham, sinto até o peso das olheiras sob os olhos vigilantes. Volto para aquele quarto, me vejo andando encurvada ainda, pois que meu corpo se acostumou com o peso da barriga e já não se lembra da leveza , do vazio , mesmo estando oco já , nunca mais voltaria a se lembrar. Eu ando em direção ao banheiro, eu me observo atenta, poderia jurar que nunca vivi isso, se não estivesse revendo a cena. Seguro o seio duro como pedra, endureceu pela falta de atenção, e expurgo o amor acumulado sem vasão, aperto, e jatos de leite se dispersam em todas as direções, acerto o espelho e no reflexo – que só vejo por esse ângulo onisciente que me possibilita enxergar todo o espaço , mesmo o que está fora do campo de visão – bem .. no reflexo é como se eu chorasse lágrimas de leite. O segundo aperto é mais eficiente, miro no ralo da pia, em parte eu acerto a outra escorre pelas minhas mãos, pelos cotovelos, penso nas crianças prematuras, no número dos bombeiros, dizem que é só ligar que eles vão em sua residência para recolher doações de leite materno, mas o pote tem que ser esterilizado, hermeticamente fechado , eu bem sei bem o que é isso, e faço idéia que vai dar trabalho. No terceiro aperto a marca dos dedos já fica na pele, feito as mãos num molde de gesso, posso ouvir os meus pensamentos de antes por trás de um sorriso irônico – sou ama de leite de todo o subterrâneo.

Esse conto lindo foi enviado pela leitora (escritora) Aleta Valente. Compartilho com carinho <3

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