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Tempo pra quê? – Maternidade e carreira profissional: como conciliar essas duas coisas.

Tempo

Tempo para acordar, bocejar, espreguiçar. Tempo pra dar de mamar. Tempo para olhar minha cara no espelho, escovar os dentes, os cabelos. Tempo pra voltar a raciocinar. Tempo para trocar a fralda, a roupa, a água. Tempo pra mastigar. Tempo para colocar a ração das cachorras, do gato, do Bento. Tempo para as mochilas arrumar. Tempo para pegar o carro, o Bento e um caminho. Tempo pra remar. Tempo pra buscar o Bento, a comida e o dinheiro. Tempo pra trabalhar. Tempo pra almoçar, almoçá-lo, água tomar. Tempo pra dar de mamar. Tempo para olhar o computador, o celular, a conta. Tempo pouco pra cochilar. Tempo para trabalhar, para trabalhar, para trabalhar. Tempo pra parar de trabalhar. Tempo para brincar, correr, amar o Bento. Tempo pra maternar. Tempo pra ler algo, escrever algo, algo questionar. Tempo pra me informar – formar. Tempo pra tomar banho, dar banho, desodorante passar. Tempo pra roupa mudar. Tempo para passear com os cachorros, com Bento, comigo – vai faltar. Cadê o tempo pra desopilar? Tempo para preparar a comida, a cama, Bento pra vida. Tempo pra dar de mamar. Tempo para apagar o Bento, as luzes, o fogo. Tempo para tentar descansar. Tempo para acordar de madrugada, de madrugada e de manhã. Tempo pra reclamar. Tempo para repetir tudo de novo, ovo, ovo, ovo…

E eu te pergunto, Cadê o tempo pra ser mãe, pra ser mulher, pra ser pai e bem sucedida profissionalmente?

Esse post participa da blogagem coletiva FeMMaterna: Maternidade, Paternidade e Carreira Profissional (ou talvez uma pausa nela).

Oi? Eu ouvi pausa? Mãe solteira tem pausa? Direito à pausa? Qualquer coisa parecida? Nananinanão…

Mãe solteira tem que passar a gravidez sozinha, parar de trabalhar – e continuar pagando as mesmas contas. Esqueceu? DNA só depois que nasce. Dinheiro também. E só depois que a justiça decide. Só depois que você já passou o perrengue dos 3 meses iniciais sem trabalho, sem ajuda, sem dinheiro. Sem companheiro. Depois que passou a arrumação do quarto, das roupas, do médico. E reze pra não ter complicações durante a gravidez! Nem ser despedida, nem perder cliente. Porque sente sono, porque sente fome e abandono. Porque teu corpo te diz “relaxa!”, mas a sociedade te diz “produza!”. Mas por favor, produza dinheiro e não uma vida. A justiça decide sabe-se lá com quantos meses. E você pensa que tem retroativo? Não. Você não precisava antes, assim pensam os colhões da nossa justiça. Claro que não precisava! Qual é o maior percentual, mulheres ricas ou pobres? E se são ricas, podem parar de trabalhar para maternar? Não. Mãe solteira passa pela solidão, pela dureza, pelo preconceito, pelo beco sem saída e ainda consegue ser acusada de golpista. Golpe do baú? Cadê o meu baú? Chamam de baú uma pensão miserável que a justiça nos concede? 300 reais, 400, 500, isso sustenta um bebê? O homem dá o que pode, a mãe dá o que não tem. Esse é o papel da mãe. O estado conta com o sacrifício materno, mas as mães não podem contar com a “colaboração”-já que o apoio não é de direito- do estado? Temos creches e escolas públicas decentes? Temos saúde pública decente? Na boa, indecência não é ser mãe solteira, indecência é nem poder parir como se deseja e ainda correr o risco de sofrer uma violência obstétrica no momento mais pleno da sua vida. Indecência é não ter a opção de maternar como se quer. Licença à maternidade de 3, 4, 6 meses! Isso é humano? Isso é completamente anti-natural, contraproducente, agressivo. Colocar um bebê longe de uma mãe por 8, 9, 10 horas é desumano. Que apoio temos do nosso estado para produzirmos um ser humano sadio? Será que não vale a pena investir no desenvolvimento deste “produto”, já que somos todos um? Apenas produtos. E as mães se sentem agredidas, culpadas e tristes. Largam seus trabalhos, mudam seus planos. Mas mãe solteira não. Mãe solteira tem orgulhoso pedir pensão. Tem orgulho de pedir DNA. Mãe solteira fica de saco cheio de tanta acusação. E se procura alguém presta não. Ela tenta abrir mão de tudo sem precisar! Só não pode abrir mão do trabalho, porque aí vira vagabunda. Tá querendo vida fácil. Ser mãe solteira não é nada fácil.

Certa vez, conversando com o meu pai que teve que voltar a me ajudar financeiramente por conta da maternidade, disse a ele que não estava conseguindo trabalhar direito. Além de não dormir, além do meu filho só ter 3 meses (na época), ele chorava muito para ficar com qualquer pessoa. Muitas vezes, chorava muito comigo mesma, teve muitas cólicas. Meu pai me respondeu: “Ele vai ter que aprender a ficar sem você.” Não. Não com 3 meses. Não com dor aos 3 meses. O que me pagam para trabalhar, não paga o meu colo pro meu filho. Em outro momento, Bento teve febre e vômitos após uma reação à vacina. Mais uma vez, meu pai argumentou “Ele tem que aprender a ficar sem você.” Não. Não com 6 meses, nem vomitando, nem com febre. Principalmente e exatamente porque sou mãe solteira. E naquele tempo, um pouco menos atualmente, eu era a única referência dele. Não estou aqui para julgar o meu pai, esse era o ponto de vista dele. Algo muito distante do que me propus a fazer quando me tornei mãe. Sua experiência de paternidade é muito diferente da minha maternidade. Planos, dinheiro, apoio e uma visão patrocinadora da coisa.

Minha resposta final ao tema Maternidade, Paternidade e Carreira Profissional (ou talvez uma pausa nela) é: é quase impossível, mas estou a tentar!

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