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Amor sem preço

 

Dia 28 de fevereiro de 2013: fim do mês. Fim do mês, miserável fim do mês. Fico pensando como eu seria mais feliz se o dinheiro não existisse.

Minha  “farra” de mãe solteira que fica só cuidando do bebê acabou, ou melhor, está acabando. Me pergunto: como será daqui pra frente? Menos horas de Bento para pagar contas e continuar com menos horas de Bento? Sem saída. Minha libido voltada pros cuidados com meu reBento e o mundo machista, que não sabe a graça de ter um filho recém saído da sua barriga, me exigindo produção.

Posso produzir amor? Posso produzir um ser humano do bem? Produzir esse tipo de coisa me faz bem mais feliz.

Quero ver a primeira vez que sustenta a cabeça, enxerga um movimento à distância, sorri. A primeira vez que senta, segura um objeto, engatinha. Eu quero notar seu primeiro dente.

Já vi homem dizendo “mas você só amamenta…” Cuidar de filho dá muito mais trabalho do que trabalhar exatamente. São 24 horas de função, madrugadas sem descanso e nem um baldinho de café você pode tomar para manter-se acesa. No caso da mãe solteira, nem o colo noturno dá para dividir. Poderia pagar alguém para ficar com ele à noite? Até poderia, mas entende que por enquanto meu bebê só reconhece a mim como sua casa? Meu peito, minha voz, meu leite, meu cheiro. Talvez, até os palavrões que solto bêbada de sono, chateada quando acorda, ele reconheça. “Essa desbocada é minha mãe.”

Me sinto violentada, sem exagero algum, quando pressionada a deixar meu filho com outras pessoas por horas para trabalhar. Me dói a alma não estar no momento que ele precisa. Me gera indignação quando vejo que as mulheres sobrevivem a isso sem se movimentar. Adoecem, secam leite, esfriam.

Temos mesmo que sofrer essa separação precoce? Ou o mundo se convenceu que um bebê de 3, 4, 5, 6 meses tem que ser independente e aprender a ficar sem a mãe.

Outro dia, Bento teve reação à vacina e desmarquei meus pacientes para ficar com ele. Nunca vi uma reação daquelas, choro, vômito, febre. Meu pai me visitou e disse: “ele vai ter que aprender a ficar sem você.” Não doente. Ele tem que aprender que pode contar comigo, isso sim.

Creche? Qual você prefere? A de 1.800 reais ou a de 2.100? A quem você vai confiar seu bebê que nem sabe se expressar ainda?

Que mundo é esse em que mais vale o que você tem na carteira do que no coração? Que país é esse? Que país é esse que acha que liberdade feminina é colocar os peitos de fora no carnaval, usar biquíni ao invés de maiô?

Tenho referências de países da Europa que, além de darem 1 ano de licença à maternidade, ainda te dão uma ajuda financeira mensal até uma certa idade da criança. No Brasil, não só perdemos o direito de escolhermos como queremos parir, como não temos apoio algum para esse primeiro ano de cuidados com o bebê.

Fim do mês me traz sempre uma questão: onde vou parar com essa quantidade de contas? Onde vai parar o aluguel que não para de subir? Será que é uma tentativa do governo de nos expulsar de casa? Será que é um desejo do governo que não tenhamos nossa casa? Eles acham que estão lidando com o que? Lixo? Falta amor. Amor básico, amor ao próximo, amor à vida ou às vidas que nos cercam.

Onde desço nesse trem desenfreado? Para quem peço ajuda? “Moço, me dá uma forcinha para cuidar bem da minha cria?”

Fim do mês é assim… Só penso num lugar melhor, mais humano para se viver.

Alguém aí, me paga para produzir amor?

 

foto: Cris Lustosa

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