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Quebra (minha) Cabeça

Ser mãe é dar de cara com a criança que nós fomos.

Bento me faz encará-la todos os dias. Ela me pede explicações. Sim, sou uma adulta e deveria ter todas as respostas que ela me pede, mas não tenho. Não ainda.

Por vezes, entro no quarto escuro e pego Bento no colo. De quebra me deparo comigo mesma deitada naquele pequeno colchão. Pergunto: Ei, o que você está fazendo aí?

A garotinha emburrada me ignora, bate o seu minúsculo pezinho no chão. Ela está brava. Não sei explicar por que.

Me inclino a pegá-la. “Ok, vamos organizar essa bagunça.” Ela dá um passo pra trás e tira minhas mãos. Fico sem entender – mentira. Entendo. Entendo bem.

Bento joga minha memória como um quebra-cabeças de 1 milhão de peças na minha frente. “Toma.” Joga sem ao menos perguntar se estou afim de brincar disso agora. Entro no jogo por falta de opção.
Fico tentando montar entre uma mamada e outra.

Nessas micro imagens da minha infância sinto exatas sensações de exatas épocas, dias ou situações. Monto uma ou duas peças. Tento imaginar a arte final.

De repente, uma náusea, uma dor de cabeça, uma raiva enooorrrmeeee! Maior, muito maior que um quebra-cabeças de 1 milhão, de 1 zilhão de peças.

Tirei a menina do quarto escuro, danou-se. Ela está descontrolada zunindo todas as peças desse quebra cabeças de tons nada pastéis. Rosa bebê? Só na foto. Eu grito:

- Páaaaaara!

Ela se retrai. Me olha com os olhos cheios d’água e diz:

- Eu vou, mas volto.

Vira-se e sai andando com seus sapatinhos vermelhos de verniz.

Fico imóvel, não queria brigar outra vez. Essa sensação de abandono me faz mal. De onde ela vem?

Volto ao quebra-cabeças, mas sou interrompida. Bento acordou.

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