Tô subindo

Era uma parede de pedras. Não era uma montanha. Era algo construído por gente.
Pedras e mais pedras empilhadas. Um paredão. Ele tinha duas partes. Na segunda, uma corda. Eu subia e, quando chegava na corda, tive que descer. E buscar o Bento.
No meio do caminho, estava o meu pai e eu via o seu esforço pra subir. “Pai, esqueci de puxar a corda aqui pra baixo. Tô indo pegar o Bento.”
Desci pra estaca zero. Catei Bento corajosamente no meu colo. Não mais sozinha, comecei minha subida outra vez.
Quis subir rapidamente. Bento caiu e bateu a cabeça. Eu vi a queda. Meu coração aflito.
Eu queria subir. Ele comigo.
Desci mais uma vez na angústia de ter matado meu filho. O acolhi em meu colo. Olhei nos seus olhos e pedi que não me deixasse. Com minha mão senti o calombo na parte posterior do seu crânio. “Bento, você não pode dormir. Olha pra mim.” Seus olhos giravam vivos. Eu olhava pro meu pai e dizia “Ele tá bem, tô subindo de novo.”

Tô subindo de novo.

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