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Um Domingo Qualquer

Domingo, 24 de Maio

Levamos nossa cachorra e nosso gato pra passear. Isso mesmo. Tenho um gato que passeia. Ele andava chateado porque saímos de uma vila na qual ele super passeava e roubava ração alheia e, agora, estamos num quarto e sala minúsculo sem camundongos e baratas tiranossáuricas.

Subimos. Bento ficou no corredor como de costume – só para quebrar as regras. Aliás, qualquer dia vou escrever um texto com o seguinte título: 2 Anos – a idade troladora. O bicho me trola o dia todo. Em tudo o que pode. E eu, na minha humilde paciência, tento colocar em prática tudo o que acredito sobre educação. Sobre o fato de eu ser adulta e não poder ser infantil à altura. É difícil, mas vou achando saídas criativas. E no máximo, me retrato quando acho que me exaltei.

[Certa vez, eu estava tão furiosa, que fui para um canto e simplesmente disse que não queria falar com ele naquele momento. O bicho me olhou com aqueles olhos arregalados e começou a fazer coisas legais para que meu lado Pafúncio fosse embora. No final, consegui dar um abraço nele e respirar fundo. Deu 5 minutos e ele estava me trolando novamente.]

Entrei em casa e fechei a porta – faz parte da brincadeira. Normalmente, logo em seguida, ele entra. Normalmente.

Foi o tempo de fazer um xixi e pegar as coisas pra ir treinar.

Abri a porta e… Cadê Bento?

- Bento?! Bento?!

Aqueles segundos intermináveis de coração na boca, sensação de que você confiou demais na vida, que você pensa:
1- Passou alguém e levou o seu filho.
2- Seu filho vazou sabe Deus pra onde.
3- Vou chorar, vou chorar!!!
4- Deus, me desculpa qualquer coisa, sei que sou uma mãe horrível!
5- Por quê que eu sempre penso que tudo vai dar certo? Você não ouve o noticiário, Fernanda?

- Bento?! Bento?!

Eis que ouço uma voz do além… Ou melhor, da portaria.

- Fernanda, ele está lá na praça! – eu morava no segundo andar de um prédio em frente a uma praça.

Não corri. Segurei aquela contração intestinal de cagaço, a calcinha já devia estar com uma freada de nervoso, ou melhor, com um cavalinho de pau, e desci os dois lances de escada que nos separavam. Calmamente. Degrau por degrau.

Glá Glá Glá Glá Glá – meu coração galopava o que eu não conseguia dizer.

Avistei a praça e o meliante ao longe. Já no balanço. Sabe se enfiar sozinho e ainda pede para o pai da criança ao lado balançá-lo.

As senhoras domingueiras com os seus respectivos cachorros, com suas respectivas bocas abertas até os seus respectivos mamilos, com seus respectivos olhos arregalados, com as suas respectivas pupilas dilatadas, me olhavam em desaprovação.

“Sá porra lôca dessa mãe…”

De que adianta esse pavor agora, minha gente, sério? Tá lá ele no balanço, olha lá. Vou correr? Não. Vou chorar? Não. Vou dar satisfações às velhinhas? Jamais.

O moleque desceu dois lances de escada, atravessou a rua, entrou no cercado de crianças e estava lá brincando. Eu sei que não se pode ficar deitado contando que o nosso Santo a uma hora dessas esteja malhando pra ser forte. Mas se fosse pra morrer, já tinha morrido. Já tinha.

Tinha morrido láááá no início, quando a pílula do dia seguinte impedia sem sucesso essa aventura. Tinha morrido láááá no início quando um ovário policístico dizia que nada se desenvolveria ali. Tinha mil coisas. Só que o Santo do bichinho é forte – e o meu por tabela também.

Atravessei a praça com a cabeça baixa. “Eu sei, eu sei, merda de mãe essa… Merda de mãe…”

Olhei pra elas como alguém que não é onipresente, não é onipotente e que, muitas vezes, menospreza as idéias de girico que uma criança pode ter- e terá cada vez mais.

- Tô frita, minha gente…

Foi o que consegui dizer para aquele inquérito silencioso que elas formavam. E que, no mínimo, esperava explicações.

Peguei ele no colo – sob protesto- enfiei no carro e disse calmamente:

- Filho, é perigoso descer para rua sem a mamãe. Você podia se machucar feio e a mamãe não pode correr esse risco. Tá bom?

Juro, não foi fingimento. Raiva velada. Foi sincero.

Lembrei de uma vez, quando eu tinha 6 anos, estava brincando num play com meus primos mais velhos. Me excluíram de uma brincadeira lá e eu me emputeci. Saí portaria a fora, andei dois ou três quarteirões e fui pra casa. Por questão de minutos, já tinha polícia atrás de mim.

O que será que ainda me aguarda?

Não tenho como prever. Só resta me preparar para ser branda, inteligente e acima de tudo:

Ser mãe sem esquecer a criança que fui.
[Aliás, que tipo de porteiro mongolóide é esse que deixa uma criança de 2 anos e 9 meses sair pela portaria e atravessar uma rua sozinho e continua sentado? Aff! Sorte dele que naquele momento meus neurônios estavam suspensos.]

foto da Michelle Castilho

 

 

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