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Parto aqui, parto acolá – Brasil-Espanha

Entrada compartilhada com a blogueira espanhola Blanca Lalanda autora do blog Samba Iberica.

 

Como lo dijo con tanta seguridad, no me atreví a preguntar cual era “ese derecho a defender”, asentí con la cabeza con cara de “claro claro, por supuesto” y me quedé como estaba. ¿Será que en Brasil las mujeres no tienen derecho a que les hagan cesáreas?.

“¿Oye Tere, tu sabes algo de esto? creo que en Brasil no hacen cesáreas, pero no me atrevo a preguntar para no parecer una ignorante”; “¡Uy maja! ni idea… ¿¡como no les van a dejar!? ¡Que fuerte! No sabía nada… ¿y si hay complicaciones? con lo monos que salen los niños por cesáreas, y no arrugados, morados, que parecen ranas y con la cabeza “apepinada” típica de los partos naturales”.

No primeiro mês que Blanca passou no Brasil, houveram 3 nascimentos próximos – um deles o do Bento, meu filho. Uma das coisas que mais chamou a atenção dela foi a frequente pergunta “Nasceu de que? Parto normal ou Cesárea?” Coisa esquisita aquela pergunta, será que saber se a mãe e o bebê passam bem não é mais importante? Encafifada com o assunto, entrou em contato com uma amiga espanhola advogada que trabalha numa ONG que se dedica à proteção das mulheres e trata de assuntos de reprodução e sexualidade. Perguntou se a amiga se ela sabia o que ocorria no Brasil, será que as mulheres não tinham direito a cesarianas? E como faziam se houvesse alguma complicação? Blanca pensava ao contrario, pois não passava na sua cabeça que seria pelo direito de um parto natural que lutariam as mulheres brasileiras. Depois disso, uma amiga em comum nos colocou em contato. Eu me encontrava vivendo intensamente todas essas questões e poderia explicar melhor a situação dos partos brasileiros. Daí surgiu nossa ideia de fazer um post compartilhado. Eu redigi um texto baseado na nossa conversa e ela outro.

 

Pré-natal

Na Espanha: São realizados exames laboratoriais e caso sugiram alguma alteração, ou se a mulher tiver mais de 35 anos, recomenda-se amniocentese (retirada do líquido amniótico para exame). Por haver risco de aborto com a amniocentese, é um direito da mulher decidir se vai fazer ou não.
As ultras são realizadas com 9, 12, 20 e 32 semanas.

No Brasil: Também são realizados exames laboratoriais e pouco ouço falar sobre amniocentese, acredito que também seja opcional.
As ultras são praticamente mensais. Excesso de intervenção, um dos maiores problemas do parto aqui. Como exemplo, com 4 meses de gravidez, o médico de plano me deu um pedido de exame de coração do bebê. Quando mudei para o médico particular, ele disse que não precisava fazer, pois nenhum exame anterior sugeria alteração cardíaca.

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Aborto

Na Espanha: É permitido no caso de riscos para saúde da mãe ou do bebê, ou em caso de abuso sexual até a 22 semana de gestação. Depois da 22 semana, se o feto tem doença incompatível com a vida, doença grave e incurável.
Se a mulher não desejar ter o filho, pode abortar até a 14 semana de gravidez. Po.

No Brasil: temos uma lei que proíbe o aborto. O que, em primeiro lugar, gera um problema de saúde pública, mulheres morrem em clínicas clandestinas para fazerem aborto. Ou seja, a lei não funciona para evitar, mas funciona para matar mulheres. Em segundo lugar, tira o poder da mulher sobre seu próprio corpo. Até pouco tempo, mulheres grávidas de bebês anencéfalos tinham que entrar na justiça para poderem abortar bebês que morreriam logo após o nascimento. Não posso imaginar passar por 9 meses de gravidez sem ter o produto final, o bebê.

 

Parto

Na Espanha: Se correr tudo bem no pré-natal, o parto é feito pela matrona (parteira), tanto no hospital, quanto em casa. O médico só entra se houver uma necessidade de cesariana.
A primeira opção é o parto natural, o mais natural possível. No sistema público é difícil o acesso a epidural. A mulher tem o direito de escolher onde quer parir, em casa ou no hospital. O governo recomenda que seja no hospital por considerar mais seguro e temer algum processo judicial caso o parto domiciliar dê alguma complicação grave.
As que escolhem ter o parto em casa têm o apoio do hospital público para qualquer complicação, ou seja, se o parto domiciliar for revertido para um parto hospitalar, necessidade de cesariana, o governo a recebe. Os médicos não ganham por parto pois se organizam em plantões, ou seja, a mulher durante o parto é atendida pelo plantonista.

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No Brasil: Vemos o mesmo tipo de recomendação, porém por algum tempo rolou um tipo de caça às bruxas do parto domiciliar por parte do Conselho de Medicina. Isso tudo como se não houvessem mortes e complicações em partos hospitalares. Houve inclusive um movimento grande contra (e depois nosso a favor) um grande obstetra de São Paulo que disse num programa de TV que se a mulher teve um pré natal saudável, ela pode ter um parto domiciliar. Inclusive o CRM do Rio de Janeiro se meteu! Essa coisa de parir em casa deve mexer com o bolso e o poder de muita gente… Pra piorar, os médicos recebem por parto, o que faz com que o médico de plano de saúde não queira esperar 14 horas de trabalho de parto, desmarcar um dia inteiro de consultório e correr o risco de trabalhar num sábado de madrugada. Como consequência disso, agendam cesarianas, tentam acelerar o trabalho de parto com hormônios sintéticos e até inventam razões inexistentes para o parto ir logo pra faca. Além disso, vivemos a cultura do medo. Somos questionadas sobre o quão animal somos. “Será que você consegue ter um parto normal? Não vai te arrebentar inteira embaixo? Seu marido não vai querer transar com você depois disso?” Imagina o macaco se perguntando se ele realmente gosta de bananas.

[Quanto às complicações, posso falar da minha experiência pessoal. Quando tinha 5 anos, fui para o hospital com meus pais pra minha mãe ter meu irmão e voltamos com a mala na mão sem bebê nenhum no colo. Por um erro médico, que não pôde ser denunciado, meu irmão nasceu morto. O médico deu um tranquilizante à minha mãe, pois ela estava muito nervosa com o trabalho de parto – durante o pré-natal, informou ao obstetra que queria fazer cesariana e não queria entrar em trabalho de parto. Um direito dela. O tranquilizante afetou a oxigenação do feto. Um outro médico explicou a causa ao meu pai, mas disse que caso ele denunciasse, não seria testemunha. Mui amigo, ou melhor, mui cúmplice de assassino. Resultado: meu irmão morreu num parto hospitalar.]

 

Acompanhante

Na Espanha: a parturiente tem direito a acompanhante.

No Brasil: a parturiente tem direito a acompanhante, mas volta e meia resolvem vetar as doulas. A inserção das doulas no cenário do parto aumenta as chances de um parto normal. Sinto muito por não ter tido uma.

O direito a um acompanhante no parto está garantido por 03 legislações:

*LEI FEDERAL Nº 11.108 DE 07 DE ABRIL DE 2005, aplicando-se o direito ao acompanhante em hospitais do SUS e seus conveniados.

*RESOLUÇÃO NORMATIVA DA ANS – RN Nº 262, DE 1 DE AGOSTO DE 2011 (no artigo 2º altera o artigo 19 da RN 211) aplicando-se o direito ao acompanhante em hospitais particulares.

*RESOLUÇÃO-RDC Nº 36, de 03 DE JUNHO DE 2008 da ANVISA (cujo item 9.1 prevê que “o Serviço deve permitir a presença de acompanhante de livre escolha da mulher no acolhimento, trabalho de parto, parto e pós-parto imediato”) aplicando-se o direito ao acompanhante em hospitais particulares.

 

Sistema de saúde pública e privada

Quando falei a Blanca que aqui tínhamos três possíveis tipos de parto: o público, o de plano de saúde e o particular, ela ficou assustada. Disse que o privado, que ela chama, seria equivalente ao plano de saúde em termos de valor e que isso indicaria um parto igual ao do serviço público só que com mais luxo (quartos individuais e etc). Aqui, para termos direito a um parto da forma que desejamos temos que pagar e muito!
Outra coisa interessante é que na Espanha, os médicos aguardam até 42 semanas para induzir o parto com um tampão de hormônios ou ocitocina. A cesárea ainda é segunda opção. Eu, quando passei da semana 40, sofri uma pressão danada para marcar a cesárea. Na semana 42, quando fui à Perinatal de Laranjeiras fazer uma ultra para checar se Bento estava bem, a médica da ultra que não tinha coisa alguma com meu parto, disse que era consenso nos estudos, o bebê tinha que nascer antes de 41 semanas, senão tinha risco de morrer. Não me apavorou porque eu estava bem assistida. Conclusão, no Brasil, 40 semanas é o limite! Só não sei se é o limite da paciência das pessoas ou o limite fisiológico do bebê. Acredita em mim, o bebê vem quando está pronto.

 

Episiotomia

Na Espanha: Lá a episiotomia não é feita de rotina, recomendam que a mulher faça massagens com óleo de rosa mosqueta no períneo e na vagina para que facilite a saída do bebê.

No Brasil: Muitos médicos realizam episio sem necessidade. Sabe-se que o corte feito pelo médico atinge mais camadas teciduais do que o rasgo feito naturalmente pela cabeça do bebê.

 

Nascimento

Na Espanha: Após o nascimento, o bebê vai direto para o peito da mãe. Limpam as coisas, vestem o bebê, cortam o cordão umbilical, tudo! Com o bebe ali, junto da mãe. Entretanto, existem casos de separação da mãe e do bebê no pós parto.

No Brasil: Aqui, são inúmeras queixas de mães que só viram seus bebês horas depois do parto. Vai depender do “estilo” do médico. No meu caso, foram pesa-lo, aspira-lo e coloca-lo uma touca da Perinatal sem a minha autorização para depois colocarem no meu peito, cheio de roupas! Não tentei amamentar ali, ninguém me deu essa opção e, com tanta roupa, não tinha como ele tentar. Em seguida, levaram ele pro berçário. Fiquei que nem maluca ligando para subirem meu filho. Levaram uma hora. Bando de filho de chocadeiras!!! Eu bufo, tenho tonteira, sobre pressão, olhos ficam vermelhos e tremo de ódio quando lembro disso.

 

Pós-parto

Na Espanha: O acompanhamento após o parto se alterna entre medico e parteira.

Brasil: O médico é o único a ter contato após uma semana e 1 mês do parto, exceto nos casos em que a mulher optou por uma doula ou uma enfermeira obstétrica particular.

 

Pra terminar, deixo um link de uma matéria que saiu no jornal espanhol El Pais falando do número absurdo de cesarianas no Brasil. O nome da matéria é

“El uso abusivo de cesáreas en América Latina contradice a la OMS”

Sim, o Brasil contradiz os números da Organização Mundial de Saúde. Tem alguma coisa errada aí… Ou será que os cordões umbilicais enrolados da América Latina são diferentes dos europeus?

 

Ah! Perguntei a ela se as mulheres na Espanha sofrem violência obstétrica. Ela nunca escutou sobre violência obstétrica (entramos em contato com a amiga advogada que trabalha na ONG e mais uma amiga que pariu recentemente e nenhuma delas tinha ouvido falar). Porém! Fui buscar na internet e achei uma denúncia de um Obstetra Espanhol que fez charges extremamente degradantes que você vê aqui. Pelo que entendi, não houve nenhuma punição. O machismo não é só sorte nossa…

 

Meu desejo é que nós mulheres sejamos cada vez mais respeitadas e reconhecidas, em todos os lugares. E se tem um ponto pra se começar, que seja aqui, no ato de parir. Onde temos chances de renovar as energias que movimentam esse mundo!

 

Agradecimentos especiais à Blanca e ao Bento que abriu esse mundo maternidade pra mim.

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Bento indeciso entre seu interesse no computador e…

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Lanche… Eu trabalhando e Bento querendo lanchar

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Resultado: gargalhadas!

 

 

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