Faz um tempo que tô pra vir ao blog falar sobre maternidade, vida, esporte, Bento. Porque sabem, quando cheguei aqui, falando sobre maternidade real, se fuder no paraíso e essas coisas, era só mato. Ainda insistiam na maternidade doriana, Johnson e Johnson e aquelas mães de bermuda social e topsider – tenho pavor de virar esse tipo de mãe um dia. Nada contra. Só contra eu ser uma delas. Paranóia.

Então não sei onde vocês pararam, faz um milênio que não escrevo sobre essa aventura infinita. Sobre quem eu me tornei. Sobre quem deixei de ser. Sobre o quão mais real sou hoje. Vou me ater a uma passagem recente.
Bento no alto dos seus 10 anos de idade, segue espichando, já passou o meu número de calçado, apresenta espinhas na testa, um cecê esporádico e fala palavrões- me imita, infelizmente. Faz 1 ano que posso dizer que voltei a mim. Com ajuda de medicamentos? Com ajuda de medicamentos. Mas acho que se não fosse isso, me tornaria bem pior que uma mãe de mocacim. Me tornaria uma mãe walking dead. Aliás, já vinha sendo walking dead. Escondida atrás do esporte, trabalho e maternidade – excelentes desculpas pra não colocar a cara no sol. Na medida que a química foi agindo em mim e o cenário externo passou a colaborar, passei a reparar nos meus cabelos, nas minhas novas rugas, nas roupas que usava. Brother, eu só tinha roupa cinza e preta. Além das velhas e rasgadas. As Maquiagens? Apodrecidas. Os cabelos? Desgrenhados. Walking dead, walking dead. Uma zumbi mãe. Era urgente mudar. Urgente! Colori as roupas, colori as unhas e entendi que a melhor coisa que eu poderia fazer por mim e por Bento era sair mais, viver mais e buscar essa Fernanda maluca, selvagem, passional, divertida dona de 4 entidades extremamente complexas. Sim, tenho 4 personagens vívidas dentro de mim, mas isso é papo pra outro post. A energia do dia a dia foi mudando e, enquanto mãe solo, tive que ir fazendo acordos com Bento para que isso fosse possível. Os respiros foram se tornando mais frequentes e pude perceber o quanto vinha agonizando.
Férias de dezembro/janeiro. Bento viajou para o pai e eu, como das últimas vezes, comemorei. Vinha sendo difícil essa relação pré adolescente que a gente tem que explicar cientificamente por que raios a criança precisa escovar os dentes. Ou por que não dá pra acordar com a cara no celular e dormir com a cara no celular. Ô batalha inglória. E veja, sou eu que tenho que explicar tudo. Não tem pai por perto, não tem avó, não tem avô, não tem tios, não tem babá. Nada, nada. Vontade de jogar pela janela persistente. Mas a essa altura, nem passa mais pela grade. Bento foi e eu curti adoidado. Passei cremes na cara, cremes no cabelo, fiz massagem facial. Comprei biquini neon e fui a praia pensando em sensualizar com uma marquinha maneira. Fui ficando meio invencível. E eu adoro quando isso acontece. Ah, mulheres, vou dizer uma coisa: se você não tem tesão, você não tá saudável- saibam. Saída do meu esconderijo, me encontrei apaixonada por mim mesma. Narcísica mesmo. E foda-se. Me deixa. Bebi, saí, beijei, treinei, dormi, fiz vários nadas e relembrei como a vida pode ser boa. 10 anos depois, me encontrava  estava diante de mim mesma. Que saudades, Fernanda! Quanta alegria ainda podia sentir no meu corpo… Volta e meia meu pensamento ia em Bento e me perguntava como iria encaixar a maternidade nisso tudo sem me tornar carrancuda, sisuda? Sem ser soterrada por 1 milhão de responsabilidades? Como ser uma pessoa mais feliz e poder dividir essa felicidade com meu filho sem perder minha liberdade. EU NÃO ME BASTO COM A MATERNIDADE. E mesmo assim, quero ser a melhor mãe do mundo pra Bento. Ele detém em escala máxima o meu amor – mas não a minha paciência, muito menos a minha vida por inteiro. Crise, mesmo sabendo que tudo isso é natural.
Daí passou o mês e foi o dia de Bento voltar. Eu me encontrava em luto completo. Sério. Movia-me lentamente. Fúnebre. Me encaminhei ao aeroporto e, no uber, abri a janela do carro pra deixar o vento varrer minhas lágrimas, tal qual o Coringa. “Era pra você estar feliz, era pra você estar feliz. Era pra você estar morrrendo de saudades. Você não ama o seu filho?” Minhas lágrimas só estavam no começo. Já na grade do desembarque do Santos Dummont, minhas lágrimas jorravam. Eu soluçava. A Fernanda linda maravilhosa selvagem e pulsante. Como que ela ia sobreviver agora? Eu não quero morrer, eu não quero morrer de novo – pensava. Chorava mais e mais. Meu filho estava quase chegando e eu não queria mais ser mãe. Eu não queria mais ser soterrada. Não queria mais largar a minha própria mão. Como faz? Aceitei meu luto e constatei : vamos para mais uma etapa do videogame, Fernanda. Mais uma mini separação. Você não precisa nem deve ser só mãe. Vai achar o caminho e vai conseguir. Você sempre consegue. Te acalma, mulher.
Bento despontou com um sorriso atrás da porta de vidro. O abracei triste. Dei meus dados a aeromoça e fomos pra casa.
Já em casa, lhe disse: Filho, vamos passar por algumas transformações aqui em casa, mas eu continuarei te amando profundamente e junto pra tudo o que você precisar. Ele não fazia ideia do que estava por vir. Separações, mudanças, conversas e sua mãe, cada vez mais humana, dava as caras. É pelo seu bem também, Bento. É pelo nosso bem.

(Bento, se um dia você ler isso aqui, lembre-se que fiz tudo o que estava ao meu alcance pra te dar vida, presente e futuro. Te amo.

Da sua mãe chorona,

Fernanda)

0 Postado por: Categorias: Qualquer coisa Tags:

Deixe um comentário