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Morde-memórias

Bento tem uma fã no Ateliê (atualmente está fazendo as atividades integradas lá toda segunda, quarta e sexta). Eu sei que ele é a coisa mais linda – e levada – desse mundo e, que uma hora ou outra, mais gente tiraria casquinha. Vá lá, 15kg… Tem pra todo mundo.

S. é aquele tipo de criança dada, simpática, amorosa e grudenta. No primeiro dia que conheceu Bento, passou a aula toda correndo atrás dele, ou melhor, engatinhando. Estava quase andando. Fofa, linda e gente boa. Tudo o que eu queria de uma nora rs. Bento não curtia muito as investidas. Faz isso comigo também. Me afasta quando o amasso com força e sapeco beijos estalados.

Bastaram algumas aulas para S., no auge do seu 1 ano, estar andando e investindo em Bento de igual para igual.

Ontem, quando cheguei para buscar Bento, a Natália me mostrou sua primeira marca de amor. S. se aproximou, agarrou Bento com energia e lhe cravou uma mordida no braço, quase no ombro. Sabe aquela coisa de “Vem cá! Pára de me evitar! Nhac!” Contam elas que ele só rosnou e continuou o que estava fazendo. S., no seu instinto, fez o que eu mais queria fazer: dar uma mordida com força nas carnes do meu próprio e gorduroso filho. Senti inveja, assumo.

E ri. Me deu uma sensação boa de Bento no mundo. Lembrei de uma amiga que contava que sentia uma certa euforia quando ia à reunião de pais e ouvia falarem do seu filho. Dizia que, naquela hora, dava conta de que seu filho era gente. E uma gente que ela tinha gerado, uma gente que ela amava. Senti um pouco disso

Fiquei sabendo que S. é de família rica e pensei em meter um processo, não pela violência, mais pelo oportunismo e necessidade, mas preferi deixar quieto rs. Vai que amanhã meu filho vira o mordedor? Sim, crianças são selvagens e como vocês sabem, um dia é da caça e o outro é do caçador. Foi aí que lembrei da minha infância, ou do que a minha mãe conta dela. Eu era a criança mordida, não a mordedora. Era uma banana. Todo dia voltava com o recadinho da creche. No entanto, quando cheguei na época da alfabetização, voltava com advertências.

“Fernanda brigou com as meninas da série acima.”

“Fernanda mordeu a professora porque não deixou ela bater no coleguinha.”

Por aí vai… As mordidas e talvez outras iras vieram à tona. Virei a caçadora cabelinho nas ventas – o que sou até hoje, só que de forma mais organizada.

Já minha irmã – e é com uma estória dela que quero finalizar esse post – era a mordedora. Ela tinha apelidos como Conga e brinquedo assassino. Desde nova fazia raivinha cerrando os punhos e dentes e se trimilicando – o que não faz uma lua em áries? Corria atrás das pessoas de boca aberta para cravar-lhes os dentes e nem preciso dizer que eu, enquanto irmã mais velha, era a mais premiada. Minha irmã sempre foi estilo caçadora, tenho testemunhas.

Entre elas, o carteiro. Ela devia ter lá os seus 2 anos, não lembro. Descíamos para passear toda manhã. Na volta, tinha mania de subir no degrauzinho da entrada segurando as grades do portão com as mãos até o sinal de abertura do mesmo. Neste fatídico dia, estava só ela e minha mãe, quando se direcionavam para porta e lá se encontrava o carteiro tocando o interfone. Cora, no seu instinto animal, grudou seus dentes na bunda do moço e créu! O cara tomou um susto e quando reparou do que se tratava, foi se virando devagarzinho para sentar no degrau, tentando se recuperar da dor. Minha mãe com cara de banana desatou a pedir desculpas. Provável que minha irmã tenha achado bem feito. Quem mandou estar no seu lugar cativo da volta do passeio, não é mesmo? Ele não esbravejou, claro, deparou-se com meio metro de gente bochechuda e cabelo de anjo. Com uma voz dolorosa repetiu algumas vezes: “Menininha bonitinha, menininha bonitinha…” A menininha era o capeta e a gente sabia.

Foi inevitável lembrar desse episódio depois da primeira mordida da vida de Bento. Primeira mordida séria, com direito à comunicado pra mãe.

É… ele tá crescendo.

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