Dia Uno

Diário de viagem 15/04

Acordei às 3:15 da manhã para estar no aeroporto às 4. Ajeitei as malas, os gatos, a chave debaixo da porta da vizinha, a mim mesma e fui. Não comi. No aeroporto, um cara da gol informava que haviam 2 documentos a preencher online, 1 a pagar e 10% da minha bateria de celular pra cumprir tudo isso em 20 minutos. Puxei o ar fundo – isso tem me ajudado. Respirar me ajuda. Consegui. A fome já dava os seus sinais. Tomei um todinho, comi a farofa de uma granola que levei e voei. Estava morta. Viajar pra mim é um estresse pré tão grande que penso em desistir de tudo. Bento, gatos e a síndrome da mãe culpada me arrasam. Fico sem saber o que há de tão grande a me mover praquilo tudo.

O avião balança e sou acordada com o solavanco e o meu próprio ronco – peço desculpas aos demais passageiros, mas roncando ou não, eu vou mimir essas 3 horas inteiras. Passa o carrinho de comida e eu não recuso. Interrompo 15 min e durmo de novo. Em solo argentino sou recebida pelo meu treinador (desde janeiro de 2022). É a primeira vez que nos vemos pessoalmente, não foi difícil achar. Ele e sua esposa me levam para “desayunar”. Como ligeiramente envergonhada, ligeiramente mais feliz. Depois vamos ao clube onde conheço o meu quarto. O Club San Fernando é um clube multiesportivo, lindo, verde e na beira do Rio. E que Rio! Arrumo minhas coisas e vou ao bar do clube almoçar. Não tem arroz com feijão, mas supero o problema com uma carne gigantesca, salada e um alfajor. Reza a lenda que a moça disse salada e arroz. Não veio o arroz, então tive que socar um alfajor visto que habita em mim um alien esfomeado. À tarde, desci para fazer peso. Pancho e Vicky (su senhora) tomaram minhas medidas antropométricas – o que me fez constatar que,  meu apelido de infância, Horácio, me caía muito bem. Tenho 1,62cm e uma envergadura de 1,57cm – o que me confere mais desvantagem pra modalidade que escolhi e o que, naturalmente, me deixou puta em saber. Joguei pra minha cabeça que é por conta dos músculos e que se eu me alongar mais, meus braços crescem. Depois, fizemos teste de peso e aqui minha alto estima fica bem confortável: EU SOU FORTE PRA CACETE. No agachamento fundo terminei o teste com 3 repetições de 90kg. Na remada deitada, terminei com 3 repetições com 55kg. Eles acharam bom e não sou eu que vou contraria-los. Depois seguimos ao mercado para comprar lanches, que alegria! Não fazia ideia da conversão e estou até o momento confusa com o quanto gastei. Rezo para que seja pouco. À noite, jantei um troço muito bom no restaurante do clube e usei o wi-fi, que glória. Subi para os meus aposentos com medo de espíritos e gente ruim. Estou sozinha no alojamento e sou cagona em alguns momentos. A gente sabe que toda garagem de remo tem malucos e malucas que como eu, apaixonados eternos, morrem e ficam remando no mundo dos espíritos. Circulam pela garagem e assustam gente como eu, ainda viva. Será que tô viva? Minha lombar dolorida me lembra que sim. Rezo um Pai nosso e apago a luz.

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