Dia 5: o dia do vira-lata da maloca argentina

Diário de Viagem: 19/04/22

Acordei e minha lombar estava revoltada comigo. Minhas pernas me lembravam da grosseria a qual as submeti ontem.

Meu sono, em geral, ficou muito debilitado depois de ser mãe. Mas na TPM… ah, na TPM ele fica especialmente tenebroso. A lôca dorme acordada quase uma semana antes de menstruar. Essa noite foi uma delas.

Desci e Pancho me aguardava para regular o barco. Trocou minhas sapatilhas, marcou ângulos. Me perguntou por que usava as sapatilhas que trouxe – ele achou suas pontas muito inclinadas- respondi porque foram de graça. Ele riu.

Remei 18km. Decidi focar apenas na virada antecipada da pá. Parece que funciona melhor o barco e me ajuda a suspender melhor no início da remada.

Encostei e fiquei lagarteando até a hora do almoço.

À distância, promovi uma caça aos ovos de Páscoa para Bento. Ontem, ele chegou de viagem e ficou procurando pela casa. Ele ainda acredita em Coelho da Páscoa e não sou eu que vou faze-lo desacreditar. Pedi à Fátima que comprasse chocolates e balas variadas e as escondesse. Mais tarde me mandou o vídeo de Bento procurando e sua felicidade me fez bem.

À tarde, Pancho preparou um teste escalonado. Meu corpo estava muito dolorido do peso, sentia sono e odeio fazer treino forte à tarde. Mas calei tudo isso, sentei a bunda no ergo e disse: bora lá. Cada contração da minha perna, doía a alma. Foram 7 estágios de incremento de intensidade. Lá pelo quarto, vi que não seria fácil cumprir os três últimos. Segui. Quinto. Sexto. Fui para o sétimo chorando. Taquei voga, sobrevivi até a metade sabendo que depois dela me animo, terminei. Viva. Tomei um ar sentada no chão e fui sair pra trotar. Vomitei parte do almoço. Nunca havia vomitado num treino. Deu um tom dramático ao meu teste.


Corri por 30 min ao redor do clube. Eram umas 18h. Fiquei impressionada com o número de crianças praticando esporte. Saí do clube pra continuar correndo, entrei numa rua meio maloqueira e um dog que estava na calçada não foi com a minha cara. De primeira, passei, ele permitiu, mas ficou me encarando. Não dei corda e segui. Só que seguindo, a rua ficava mais maloqueira ainda e achei melhor não bancar a gringa sem noção, afinal, sou carioca, cresci na selva, sinto o cheiro do perigo. Não querendo mostrar minha capoeira,  dei meia volta. O dog. O dog não tolerou a minha audácia e resolveu correr atrás de mim, queria me morder o bonito. Ele só não sabia que ali estava uma mulher que corre com os lobos, os gatos, os peros, as galinhas, capivaras e toda fauna ao seu alcance. Uma mulher trabalhada nos ensinamentos de César Milan e que já criou uns 5 cachorros pelo menos. Mantive meu ritmo de lesma e o olhar altivo. “Sou alpha, vira lata da maloca argentina!” Senti o bafo do doguinho no meu tornozelo. Um cara que havia acabado de estacionar, o chamou e o bicho desistiu de mim.

Voltei ao clube me sentindo melhor. Tomei um banho gelado e desci novamente para ver a molecada remar. Eram pelo menos umas 50 crianças tocando o zaralho na garagem, além de algumas masters que estavam sendo acessoradas por Paula, uma treinadora daqui.

Vicky chegou com um saquinho de nuts, um curativo para o meu dedo e, acima de tudo, mais amor pra minha alma. Conversamos um pouco – e Pancho ri quando falo espanhol. Estou melhorando o espanhol com a prática e a cara de pau.

Subi pra dormir.

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