Dia Trê: o dia do Veleiro que não estava parado

Diário de viagem: 17/04/22

Dormi bem na minha avaliação, mas o relógio me disse que não. Ele afere o meu sono e, em geral, tem razão. Comi uma tortilla de arroz com queso e a geleia de laranja que Pancho me deu. Esse troço de juntar português com espanhol é viciante. Aliás, acho uma perda de tempo o Brasil, apenas o alecrim dourado do Brasil, não hablar espanhol. Essa língua tão bonitita, fofita, chiquitita.

Desci pronta para encarar meus demônios, meus defeitos técnicos e me esforçar ao máximo para corrigi-los. Sem ter onde me esconder, fiz mais um ajuste no fincapé e fui. Hoje, Sofi não veio e consegui focar mais em mim mesma. “Como una girafa e não como una tortuga!” – Pancho me gritava e eu abria um sorriso. Fizemos alguns exercícios técnicos e fui tentando fazer o que me pedia. Precisava organizar melhor a ré, antecipar as pás, puxar o carro, não encostar o peito na perna, coincidir a entrada da pá com a chegada do carrinho, relaxar os ombros, ou seja, morrer e nascer de novo. Fomos parte a parte e consegui sentir algumas coisas que me pedia. Certa de que essa parte do peito pra cima é uma das partes essenciais. Fiquei tão dentro do barco, tão dentro do barco. Queria tanto emplacar a melhor remada, tanto, que não vi os quilômetros passarem. Por um momento, fizemos uma pausa para beber água olhei à minha volta. Havia uma imensidão de Rio. Agradeci, mas agradeci pra cacete. Senti muito prazer naquele momento. A lancha deu uma afogada e Pancho me mandou completar o treino hasta el ultimo veleiro. Daí segui remando, certa de que a girafa já estava bem cansada e a tortuga voltava a me dominar. Olhava pra trás e o raio do veleiro continuava longe. Minha visão já perdia contato com Pancho engasgado na lancha. Eu não chegava nunca. Resolvi parar e olhar. O bicho estava se movendo pra longe. Eu ri. Voltei e fui tentar achar Pancho. Ela havia me dito que depois de completar a quilometragem, eu voltaria por um caminho alternativo bem entrecortado pra fazer turismo e ver como é bonito. Quando o encontrei, falei sobre o veleiro e caímos na gargalhada. Peguei o caminho que indicou e ele ainda ficou lá tentando desenguiçar. De braços dados com minha tortuga, voltei admirada com as casinhas simples na beira do Rio. Meu sonho era morar  algo do tipo ou num veleiro. Muito verde, muita água. Pensava que veria mais bichos e falei alto: cadê os bichos desse lugar? Não dei duas remadas e começaram aparecer doguinhos no deck das casas e maritacas nas árvores. Tudo bem que eu queria ver lobos, panteras, bichos um pouco mais selvagens, mas aceitei. No final do percurso, beirando as 3 horas de treino, Pancho chegou e encostamos. Falamos um pouco sobre o treino e ele achou melhor que ontem.

À tarde saí de trem para almoçar com Patrícia – ela tem sido muito generosa comigo. Fomos a Tigre, onde estive grávida assistindo ao pré olímpico de 2012. É uma cidade bonita pra caramba onde tem uma avenida que beira a raia de competição chamada de “avenida de Los Remeros”. Assim como clubes muito antigos mais parecidos com castelos medievais. O remo aqui faz parte da cultura, é um esporte reconhecido e acho isso demais. Cansada de caminhar, voltamos para casa. Jantei, fiquei sem Internet e dormi.

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