Dia 7: o primeiro dia na pista

Diário de viagem: 21/04/22

Se estivesse chovendo, era pra fazer ergo.
Mal abri meus olhos insones, vi que pingava lá fora. Dava pra remar? Creio que sim. Mas achei melhor dormir um pouco mais e ir para o ergo.
O corpo, às vezes, te dá a deixa. Só que a cabeça amaluquece. Quando você se torna atleta, aprende o “treine enquanto eles dormem” repete isso mais de 10 vezes e se esquece de como é chutar o balde. Balde? Que balde?

Desci pra treinar com a cama garrada. Venci o ergo e minha preguiça. Lagarteei. Tanto que esqueci que carreguei a chave do ginásio.

Na hora do almoço, minha mãe me manda mensagem perguntando se meu filho ainda acredita em coelhinho da Páscoa. A essa altura, provavelmente, já bebeu e eu imagino o que vem. Disse que sim e ela me perguntou o que vou fazer se os amigos rirem dele. Eles não são tão cruéis como você, mãe – pensei.

À tarde fui à pista. Lembrei do Argentino de 2014. Ganhei um double leve e um quatro sem pesado. A prova do 4 sem foi demais. No aquecimento, um barco que descia uma prova, bateu no nosso. Minha sota voga caiu desmaiada no meu colo. Foi inacreditável.  Porque, assim como caiu,  levantou e disse: estou bem, vamos. Fiquei impressionada com a sua vontade de competir. Assim, eu não poderia dar nada menos que o máximo de mim. Foi demais. Não lembro de largada, meio e chegada. Foi largada do início ao fim. Barcos parelhos, treinadores na beira da raia de bicicleta, uma gritaria enorme. Ganhamos de bico de proa.

Na pista haviam doguinhos. Fizemos amizade. Perguntei se queriam ir ao Brasil. Sinto saudades de viver com doguinhos. Nessa hora mentalizo o trabalho de catar cocô e xixi. Respiro e tento parar de sentir falta.

Vento contra e corrente a favor: raia rápida. Vento a favor e corrente contra: raia lenta. Se conclui que na batalha água e vento, a água vence. A sensação é engraçada. As pás se esforçam mais do que o normal pra virarem, o corpo sente o peso do ar nas costas, no entanto as pás passam tranquilas.

Aqui é bonito também, mas Lujan, o Rio, é um ser vivo, uma entidade. A espiritualidade que envolve lhe tocar com o barco, transcende os valores olímpicos de Coubertin.

Tomei banho, comi e dormi.

Com os deuses.

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