Dia 6: o dia Internacional da virada das pás

Diário de Viagem: 20/04/22

Acordei lenta sob efeito do relaxante muscular que, finalmente, me deu uma noite inteira de sono nessa TPM maldita. Além da insônia me encanta o barrigão de grávida, as pernas inchadas e o desejo de socar pasta de amendoim com dulche de leche pra dentro a cada duas horas. Às vezes, uma.

Entornei café preto pra dentro. Amo.

Ontem, perguntei ao treinador, de todos os defeitos que apresento no momento (uma coleção deles) qual devo focar agora, qual é o mais importante para eu não ficar loca pensando em vários ao mesmo tempo. Primeiro, ele me respondeu: “Mais louca? É possível?”. Acho que não. Mas é aquela coisa, sempre pode piorar. Tenhamos humildade. “La virada de las pallas”. Ok. A virada das pás.

Desci pra treinar com uma única missão nos 12km que me foram designados. Virar a caralha da pá antecipadamente em toda bendita remada que eu der.
Amor, se tem uma coisa que eu vou fazer hoje, essa coisa é virar as pás. Me olhei no espelho do banheiro e disse: Fernanda, você é capaz de virar essa porra dessas pás logo que passar a borda. Ah, mas você é!

(Nota: se eu tirar os palavrões do texto, automaticamente acharão que tenho um ghost writing. Pra isso, manterei a autenticidade de tudo que disse. Ou praticamente tudo)

Já saí da rampa colocando na borda e virando. Achando o equilíbrio, a altura das mãos, o momento. Antes, fiquei parada girando uma pá de cada lado de uma vez pra guardar a sensação dos punhos.

Fui 6km com neblina e voltei 6km no sol. Quando sentia que me perdia, parava e começava a aulinha da tia Teteca de novo: ré, borda, palamenta, puxa carro, solta na água, relaxa braços, suspende com pernas, extende joelhos, finaliza a ré suave.

Antes de encostar, mais escola parada. Saí do barco contente, no entanto, sabendo que leva tempo pra automatizar.

Tentei fazer uma vitamina num liquidificador véio. Joguei leite, banana e pasta de amendoim. Liguei e o bicho não funcionou. Tive que beber o leite puro, comer a banana molhada e catar a pasta de amendoim no fundo.

Fui lavar roupas e aproveitei pra lavar uma louça no banheiro. Voltando para o quarto cheia de coisas nas mãos e braços, piso molhado e descalça, tomei um tombo bizarro e quebrei o jarro de vidro que carregava. Fiquei bem, podia ser pior. Ri.

Almocei papas e mais alguma coisa. Aqui se come papas todos los dias. Eu prefiro arroz com feijão, apesar de adorar batatas. Usando o wifi do restaurante, recebi mensagens confidenciais com coisas que eu preferia não saber. Mas é isso, quando você se põe diante de algumas causas e se dispõe a ouvir, chegam coisas variadas. Me peguei pensando por quê me proponho a isso. Como filtrar? Como não absorver e sentir inteiramente tendo tanta energia pisciana. Nunca mergulhei num só lugar sem sair enxarcada.

Dei um rolé de bici até o banco. Não consegui sacar dinheiro. Passei no mercado. Mais tarde fui a Tigre com Pancho e Vicky.
Estávamos manobrando o carro quando avistei uma ave bonita e diferente com um conjunto de penas vermelhas na cabeça. Era um pica-pau. Bem diferente do desenho que assistia quando era pequena, mais bonito. Eu adorava o Pica-pau, talvez porque ele tivesse a energia carioca. Zoava todo mundo, mas não deixava barato quem zoasse ele.

Conheci pessoas do remo paralimpico daqui, em especial a Brenda, que foi aos Jogos Paralímpicos de Tokyo pela Argentina. Fui ao Centro Olímpico de Remo deles e juntando com algo que já falei hoje, existem piscinas que não quero mergulhar, basta a do meu país. Quero só remar e me conectar com as mulheres.

Falando sobre isso, é preciso que fique claro que existem pessoas e instituições que realmente lutam por equidade, por diversidade. Porém, também existem aquelas que sabem que esses assuntos estão em alta e surfam na onda da luta de muita gente. Saber diferenciar é um desafio.

Voltei pra casa seca, reflexiva e sem medo dos espíritos.

Conversei com uma amiga que remou comigo em 1999 quando fui campeã estadual pela primeira vez. Foi uma troca de energia imensa e feliz.

Dormi com amor no coração

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